nome de santa! Não, de puta! - 2024
Ontem, no recuperado Salão Central, foi organizada uma sessão para contarmos historias ligadas ao salão, não fui, Ney estava em Lisboa e eu tinha bilhete há meses. Mas deixo-vos uma das historias que me ligam ao salão central, não foi vivida por mim, não foi vivida lá, mas fez com que a minha vida e o salão estejam ligados desde que nasci. Na década de 60, quando nasci já o salão tinha as segundas feiras dedicada aos cinema para adulto. Em tempo de fascismo, com tudo proibido, com separação vincada entre homens e mulheres, num tempo em que a maior parte dos casais ainda se despia de luz apagada, aquelas sessões eram um sucesso de bilheteira.
Também naquele tempo, quem decidia o nome dos bebes eram os padrinhos. Perto de eu nascer a minha marinha Lucrécia, irmã da minha mãe, e o meu padrinho Antônio, irmão do meu pai, não se entendiam em relação ao nome a dar ao rebento, euzinha, ele queria Carolina ou Josefa, como a mulher e a mãe, ela queria Zulmira como a mãe dela ou Lucrécia como ela própria, não se entendiam de maneira nenhuma, brigando mesmo por causa do nome. Os meus pais torciam para que fosse menino, já que ai estavam ambos de acordo, seria Pedro, vá-se lá saber porquê. Mas eu nasci menina para complicar a coisa. Sem chegarem a acordo no dia de nascença, depois de mais uma briga entre ambos, o meu padrinho foi sozinho ao registo civil e registrou-me como Maria de Lurdes. De volta à conversa com a família, chegou com a papelada e o nome para a criança. Todos acharam estranho aquele nome, nunca antes mencionado. Mas não desgostaram, a minha madrinha aceitou e o caso terminava ai, não fosse a minha mãe ser curiosa. Perguntou ao cunhado onde tinha ido buscar o nome. O meu padrinho, que não tinha grande delicadeza e era de uma frontalidade assustadora respondeu-lhe, ele tinha ido na segunda feira, eu nasci a uma quarta, ao cinema e a protagonista do filme pornográfico chamava Maria de Lurdes, como tinha gostado dela, resolveu batizar-me com aquele nome. Dizia quem assistiu que a minha mãe só não lhe bateu porque não deixaram, que espumava de raiva, pela afronta. Afronta que sentiu ate morrer, odiava saber que o nome da filha não era por causa da santa e sim por causa da puta. Eu só soube desta historia já grande e sempre a achei deliciosa e muitas vezes quando entrava no Salão Central, agradecia o filme visto pelo meu padrinho naquela tela, permitindo-me fugir à desgraça de me chamar Zulmira ou Josefa.
Sei que muitos tiveram historias vividas no Salão Central, eu própria tive muitas outras, mas esta, liga-me a ele desde o dia em que nasci, o que não deve ter acontecido com muita gente.
É por isso que quando ao dizer o nome, se me dizem "como a Santa" eu respondo "não, como a puta". E sabem que mais adoro o meu nome. E se há coisas que gosto na minha historia de vida é ter o nome por causa do filme no Salão Central, e ter nascido no dia em que se inaugurou o Monte Alentejano, estas são duas estruturas da cidade que amo.
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