Gulhermina a mae leoa- 2024

 hoje vou contar-vos uma historia triste, mas com um final feliz. Lembrei-me dela porque me cruzei hoje num supermercado com a Guilhermina. Guilhermina era colega da minha mãe na fabrica. uma mulher sofrida, vivia ali perto da rotunda da bicicleta, num pátio enorme onde habitavam muitas familias e que hoje esta em ruinas. Era casada com um funcionário dos caminhos de ferro, tinha muitos filhos, para ai uns 10 ou mais, já não me lembro, e viviam muito mal.

O marido era um homem de maus fígados, batia naquela gente toda e era violento também para os vizinhos. Havia noites naquele pátio em que ninguem descansava e quem se metia levava também, era rara a semana em que Guilhermina não chegasse ao trabalho toda negra, às vezes com algum membro partido, mas ia trabalhar na mesma, não podia faltar senão não lhe pagavam e a fome em casa só aumentava. poderíamos pensar que a vida da Guilhermina não podia piorar, mas o facto é que conseguiu. Um dia, depois do trabalho chegando a casa, Guilhermina achou os filhos muito cabisbaixos, eram muitos, normalmente faziam muito arraial, mas naquele dia andavam por ali meio calados, não ligou, foi para casa, tratou das coisas, colocou o que tinha para comer na mesa e chamou os filhos. A algazarra costumeira na chamada para as sopas, foi o que primeiro lhe chamou a atenção, depois a falta de briga entre eles pela melhor parte, serviam o prato sem reclamar e iam sentar-se no banco que lhes pertencia sem mais barulho. Foi olhando e estranhando até ter dado pela falta de 2 dos filhos. Faltava a Rosário e o Alfredo. Perguntou por eles, achando que tinham continuado na brincadeira, mas logo de seguida, vários dos filhos começaram a chorar, às paginas tantas já choravam todos. tentou faze-los parar para que lhes respondessem e quando conseguiu a resposta partiu-lhe o coração. Tinha vindo um casal e o marido tinha vendido os 2 filhos, dizendo aos restantes que se não se portassem bem eram eles a seguir. Guilhermina não resistiu e teve um ataque de coração. Os miúdos gritaram por ajuda, os vizinhos chamaram os bombeiros e Guilhermina foi internada de urgência. Enquanto esteve internada, varias colegas tomaram conta da prol, para os salvar do Pai. Recuperada, Guilhermina voltou para casa e instigada pelas colegas fez queixa do marido na policia. Eram tempos complicados aqueles, o marido era o pai das crianças podia fazer o que quisesse, nada lhe aconteceu e a Guilhermina restou-lhe aceitar a decisão, tomando ela uma outra, não voltaria a trabalhar, iam passar mais fome, mas ela não voltava a sair de casa e a deixar os outros filhos à mercê do pai, ia protege-los o melhor que pudesse. A vida tem caminhos engraçados, poucos meses depois, chegou a casa de Guilhermina uma carta vinda de Setúbal, nela a mulher que tinha comprado os seus filhos pedia-lhe que os fosse buscar, o marido havia morrido e não tinha como manter 2 crianças. Fizeram os vizinhos e antigos colegas uma vaquinha para comprar passagens de camioneta, sim porque de comboio Guilhermina não queria ir, não fosse o marido proibi-la de viajar. uns dias depois embarcam na camioneta Guilhermina e a sua prol em busca dos meninos vendidos.
No final de dia, de volta a casa com todos os filhos de novo, Guilhermina, qual mãe ursa, pegou numa enxada e enfrentou o marido, que não queria mais 2 bocas para comer. Guilhermina a mãe leoa, encostou o marido à parede, se voltasse a fazer alguma coisa com algum dos filhos ela ia presa, mas ele seria um homem morto. Dizia quem viu, que a determinação era verdadeira e foi disso que o marido teve medo. Durante alguns anos continuaram aquela vida, difícil, de miséria, ajudada a Guilhermina por vários amigos, o marido fazendo o terror em todos por dá cá aquela palha, mas sem nunca mais ter tentado nada contra os filhos. Um dia, sem explicação o marido da Guilhermina faleceu ao sair do comboio que tinha acabado de conduzir de Lisboa até Évora. No dia seguinte no velório, pouco concorrido pois o homem era intratável e não tinha muitos amigos, Guilhermina entrou com a sua prol na igreja de S. Brás, para espanto geral ia com roupa colorida tal como os seus filhos, coisa nunca vista na época e ao ver a cara do homem morto, dirigiu-se aos filhos " nem uma lagrima, ele não merece, já foi tarde" virou as costas e com os filhos atras foi para casa, só voltando na hora do funeral e a cada pessoa que se lhe dirigia a dar os sentimentos respondia " já foi tarde". Guilhermina voltou a trabalhar depois da morte do marido, o seu ordenado e a pequena reforma permitiram-lhe melhorar a vida dela e dos filhos e dizia a quem quisesse escutar que agora sim vivia bem. Guilhermina, criou os filhos, os netos e já tem bisnetos e hoje estava com uma blusa amarela e uma saia marrom no supermercado, esta velhinha a Guilhermina, usa bengala, mas ainda estava nas compras sozinha e sorria para a menina da caixa. Fiquei feliz por ter visto a Guilhermina, gostei de beijar aquela velhinha que deu a volta à vida e conseguiu fazer limonada com os limões que a vida lhe deu.

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