Hoje na esplanada onde fui encontrei uma das meninas que viviam no convento, ela não me reconheceu, mas eu sim. Há caras e historias que nunca esqueço. A Joaquina era filha de uma mulher muito pobre que vivia para os lados do bairro da câmara e estava no convento devido à pobreza, assim como muitas outras. Mas havia uma diferença entre ela e as outras...todos os dias de manha, antes das 7h a mãe batia desalmadamente à porta do convento para ir ver a filha. Eu como não dormia lá entrava por volta dessa hora, tinha que ficar no átrio sentada no banco à espera que todas se levantassem e só podia subir na hora da missa, dada às 7.15h. Por isso durante anos assisti à mesma cena. A mãe batia violentamente na porta, a freira porteira descia a praguejar as escadarias, retirava do bolso do habito uma chave enorme e ao abrir a porta começava a discutir com a Maria Maluca, como era conhecida. Mas ela não desarmava queria ver e beijar a filha e lá conseguia que a fizessem descer. Depois das festas e dos beijos, a Maria saia despedindo-se com um ate amanha à filha, a freira praguejava e dizia que não voltasse pois não lhe abria a porta e eu ali ficava sentada com os pés pendurados por não me chegarem ao chão a assistir aquela cena que sempre encarei como uma cena de amor. No outro dia a cena repetia-se e sempre assim foi ate eu sair do colégio. Hoje o companheiro da Joaquina estava sentado ao seu lado e enquanto conversavam fazia-lhe festas na mão que ela tinha sobre a mesa. A Joaquina ainda me parece uma mulher sem muitas posses, mas fico feliz que tenha tido sempre ao seu lado gente que a amou...sim porque a mãe apesar de não a ter em casa sempre lhe provou que a amava e hoje o companheiro também me fez crer isso. Fiquei feliz pela Joaquina, apesar dela não se lembrar de mim...pelo menos foi o que achei quando lhe disse boa noite!
a cave do sertorio- 2021
Num tempo do seculo passado, no tempo da adolescência, dividia as minhas tardes entre o Café Portugal e a cave da loja do Sertório, eu e todos os meus amigos da época. Ali pela mão de Quim Sertório escutávamos durante horas musicas que não conhecíamos, descobríamos novos cantores, novas sonoridades, novas tendências. Ele ia mostrando as novidades e depois chegava outro e mais outro que queriam escutar este ou aquele cantor. Passávamos horas ali enfiados, por baixo da loja, de quando em vez entrava um cliente mais velho que fazia baixar a musica ou que queria uma sonoridade que não nos agradava e lá voltávamos ao café Portugal, sempre com um ou dois vinis debaixo do braço. Estes eram os discos que iriam depois animar as nossas festas. Quando comecei na radio foram horas e horas no mesmo espaço, mas ai já com objectivos diferentes, mostrar coisas novas, diferentes, ou coisas antigas que continuavam actuais. Com a chegada da internet mantive esse habito, já não vou à cave do Sertó...
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