A Évora da minha adolescência era uma cidade ainda mais conservadora do que é hoje. Não eram muitas as meninas da minha idade que frequentavam os bares ou os cafés. Ao cinema iam acompanhadas das mães. Frequentavam as pastelarias ou salões de chã e nunca frequentavam o Café Portugal ( isso era só para adolescentes malucas ou drogadas). A noite era-lhes vedada a não ser a ida ao baile acompanhadas devidamente. As amizades com os rapazes só na escola ou numa ou outra festa de domingo há tarde. Por isso durante o dia desforravam-se e faziam coisas que jamais passariam pelas cabeças dos seus progenitores. A feira de S. João era por isso um espaço onde se esbaldavam. Passavam as tardes nas pistas e nos carroceis, provavam bebidas alcoólicas e flertavam com os rapazes da feira. Eles davam-lhes senhas e fichas e elas davam-lhes conversa. Para quem estava preso o ano inteiro aqueles momentos de liberdade eram o paraíso. Pouco habituadas a estas relações entre géneros era comum caírem direitinho nas cantadas baratas dos jovens das pistas, habituados a este tipo de engate fácil. Era por isso comum no final da feira o desaparecimento de duas ou três. Os pais aflitos asseguravam que elas tinham sido levadas pelos feirantes, nós porem sabíamos que elas tinham ido de livre vontade. um ou dois meses depois lá voltavam há cidade, afirmando a pés juntos que tinham sido levadas à força. Depois as rédeas apertavam ainda mais, algumas deixavam mesmo de frequentar a escola e meses depois nascia-lhes um novo irmão. Numa cidade tão pequena e onde tudo o que era segredo se sabia, todos fingiam acreditar. Foi num destes "desaparecimentos" da filha de uma colega da minha mãe que me servia de comparação de cada vez que eu fazia algo fora dos padrões ( o que era comum) e porque aquilo me chateava, que pela primeira vez soltei a frase que ainda hoje digo muitas vezes " E a maluca sou eu?".
a cave do sertorio- 2021
Num tempo do seculo passado, no tempo da adolescência, dividia as minhas tardes entre o Café Portugal e a cave da loja do Sertório, eu e todos os meus amigos da época. Ali pela mão de Quim Sertório escutávamos durante horas musicas que não conhecíamos, descobríamos novos cantores, novas sonoridades, novas tendências. Ele ia mostrando as novidades e depois chegava outro e mais outro que queriam escutar este ou aquele cantor. Passávamos horas ali enfiados, por baixo da loja, de quando em vez entrava um cliente mais velho que fazia baixar a musica ou que queria uma sonoridade que não nos agradava e lá voltávamos ao café Portugal, sempre com um ou dois vinis debaixo do braço. Estes eram os discos que iriam depois animar as nossas festas. Quando comecei na radio foram horas e horas no mesmo espaço, mas ai já com objectivos diferentes, mostrar coisas novas, diferentes, ou coisas antigas que continuavam actuais. Com a chegada da internet mantive esse habito, já não vou à cave do Sertó...
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