Ver os nossos partirem - 2022
Ver os nossos deixarem de ser eles, é doloroso. Amargura-nos. Quando tinha 20 e pouco anos, fui cuidadora pela 1ª vez. Os pais da Midus entraram-nos em casa debilitados, a mãe muito doente, o pai muito frágil pela doença da mulher da sua vida. Talvez devido à idade, ou porque já os conheci assim, vê-los sem esperança, sem um sentido para a vida para alem da debilidade, talvez porque os conhecia há poucos tempos, doeu-me, mas não me amargurou. Não os senti a deixarem de ser eles, já os conheci naquele registo. Um registo que no caso dela durou 1 ano, no dele mais 10. Não sendo fácil, condicionando algumas partes das nossas vidas, pareceu-me leve de transportar.. Uns anos depois, por volta dos 30, voltei a desempenhar o mesmo papel, mas aí era o meu pai. Acamado durante 9 meses, impossibilitado de andar, fui a sua cuidadora, talvez de novo pela idade, talvez porque ele continuava ele na essência só não na mobilidade, não senti a carga, havia em mim a certeza de que ele sairia daque...