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Ver os nossos partirem - 2022

  Ver os nossos deixarem de ser eles, é doloroso. Amargura-nos. Quando tinha 20 e pouco anos, fui cuidadora pela 1ª vez. Os pais da Midus entraram-nos em casa debilitados, a mãe muito doente, o pai muito frágil pela doença da mulher da sua vida. Talvez devido à idade, ou porque já os conheci assim, vê-los sem esperança, sem um sentido para a vida para alem da debilidade, talvez porque os conhecia há poucos tempos, doeu-me, mas não me amargurou. Não os senti a deixarem de ser eles, já os conheci naquele registo. Um registo que no caso dela durou 1 ano, no dele mais 10. Não sendo fácil, condicionando algumas partes das nossas vidas, pareceu-me leve de transportar.. Uns anos depois, por volta dos 30, voltei a desempenhar o mesmo papel, mas aí era o meu pai. Acamado durante 9 meses, impossibilitado de andar, fui a sua cuidadora, talvez de novo pela idade, talvez porque ele continuava ele na essência só não na mobilidade, não senti a carga, havia em mim a certeza de que ele sairia daque...

os que deram os peitos às balas - 2024

  A Maria Barrenha, minha bisa, que descobri há pouco se chamava Maria Matilde, teve vários irmão e filhos presos. As historias de fugas, prisões, rebeliões, batalhas, greves e mortes que o meu pai me contava, para me ensinar que doa o que doer temos que resistir, lutar para conseguir o que é mais justo para todos, tinham nomes, mas não tinham rostos, alguns ainda não tem. Mas no sábado, com o lançamento do Livro "Tarrafal Campo de concentração" pude dar rosto a 2 destes homens de que herdei o ADN e que antes d' eu pensar em existir, deram o peito às balas, para que a minha vida hoje seja muito melhor do que aquela que eles tiveram. José Francisco dos Santos " O Malaranha" e Aníbal dos Santos, estiveram no Tarrafal e noutras prisões do Pais, porque dedicaram as suas vidas à resistência, à luta por melhores condições de vida, lutaram pela Liberdade, a deles e a de todos nós. Nenhum deles a viu, nenhum viveu para ver que as suas lutas valeram a pena, tal como Ma...

lei de base para a cultura-2020

  Vou contar-vos varias historias para tentar que alguns percebam esta minha área que é confusa, injusta e tem levado a considerações erradas. Se pelo menos 1 ficar a perceber já´ valeu. Se ninguém perceber eu pelo menos tentei. Em 1989 passei a trabalhar a recibos verdes (não se chamava isso mas ia dar no mesmo) descontava para a segurança social 4.500$00 (quase 25€). Como a minha filha era pequena solicitei o abono de família que eram 600$00, veio indeferido. Nao tinha direito porque eu descontava segundo os recibos verdes. Barafustei, escrevi para deus e o mundo, mas não foi possível. Eu tinha o dever de descontar (e bem) já ela não tinha direito ao que tinham todas as crianças da sua idade. Na década de 90 (não me lembro o ano) em Fevereiro fiquei muito doente, o medico disse que teria de ficar em casa pois corria o risco de ter uma pneumonia, enviei para a segurança social o papel da baixa. Indeferido. Os recibos verdes não tinham direito a baixa. Em Março sem baixa e sem din...

Detesto o medo.-2020

  Detesto o medo. É um sentimento que nos oprime, nos condiciona e que os poderosos sempre usaram para nos controlar. Por isso cada vez que tenho um medo, luto contra ele. Exceto o dos gatos tem resultado. Mas ontem, quando dei por mim já´ tinha feito uma coisa levada pelo medo. Fui pela alcárcova de cima para tirar a mascara e fumar um cigarro, em sentido contrario vinha um casal conhecido e quando dei por mim, tinha baixo a cara ao passar por eles e só os cumprimentei já estávamos costas com costas. Fiz sem pensar e só me apercebi depois, mas fiquei profundamente irritada. O meu medo de lhes provocar algo, fez-me tomar uma atitude horrível e condicionou-me a forma de lhes falar. Foi muito mau e extremamente deselegante, provavelmente eles nem deram por isso, mas a mim incomodou-me. Odio este vírus especialmente porque não o vejo e não posso lutar contra ele!

a cidade de deus-2021

  Já ha uns tempos que andava para ver o documentário "cidade de Deus 10 anos depois" foi hoje. em 2002 quando o mundo viu a violência da favela, quando assistiu à forma crua e dura com que ela esmaga os meninos que nela nascem, não lhes permitindo sonhar com um futuro que não seja de criminoso ou de vitima, ficou chocado. Cidade de Deus conquistou os grandes festivais do mundo, ganhou prémios, foi nomeado para outros tantos e as suas crianças andaram pelo mundo a publicitar a sua miséria. Desde a sua estreia ate hoje, o filme já foi visto por muitos milhões, rendeu horrores a quem o produziu e realizou. 10 anos depois um outro produtor que ver o que tinha mudado na vida dos "atores" de cidade de Deus e se é verdade que meia dúzia dos intervenientes criaram asas e voaram, sendo hoje atores consagrados, o facto é que na vida da maioria o sucesso e o lucro do filme não alteraram nada às suas vidas de batalha. O crime levou uns, a morte ceifou outros e outros estão na ...

o Ze melo-2023

  Hoje o final de tarde no Convento dos Remédios, foi emotivo. Num convite do Rui Arimateia, da Luísa e da Gisela, fui relembrar um amigo, um companheiro, um dos meus. José Fontes Pereira de Melo, ou Zé Melo, como o conhecíamos por cá. Um homem das canções, das tradições, da cultura que marcou a cidade e todos os que com ele privaram. O Zé era um homem grande, de postura aristocrata, como tão bem disse o seu primo, que impunha respeito nas suas funções de Tesoureiro da CME. Mas era um coração de ouro. Um coração tão ou maior que a sua estatura. Escrevia canções como poucos, sobre tudo e sobre nada. Quando lhe vinha a inspiração, ou a pedido. Tantas vezes o meti em trabalhos com pedidos de canções sobre temas estranhos. Era uma câmara que pedia um tema sobre chapéus, outra que queria um sobre livros, mais uma com um pedido sobre café, outra sobre o meio ambiente ou ainda sobre desporto. E o Zé escrevia-as num piscar de olhos. Depois da sua pena cumprir o solicitado, sentava-se e co...

precisampos tanto como a fome- 2025

  Ha muitos anos, por uma multa de transito incorrecta, fui a tribunal defender-me. Como no nosso sistema não nos podemos defender a nós próprios e eu não tinha dinheiro para um advogado, o tribunal nomeou-me um. Não percebia nada daquilo, felizmente, e fui respondendo às perguntas dos 2 advogados presentes, que me atacavam os dois de forma igual. Porque tinha a razao do meu lado, o que é sempre bom nestas coisas, porque sei responder sem me irritar, a decisão foi que o policia estava errado em me multar, o que era a verdade. No final quis saber qual dos 2 advogados era o que supostamente me deveria ter defendido e verifiquei que tinha sido o que mais me atacou. Dirigi-me ao senhor e disse-lhe " com advogados de defesa como vocês, pode-se poupar nos de acusação " não gostou, mas era a verdade. Esta história vem a que proposito? Porque com esta ministra do trabalho, poupavamos dinheiro se ela não existisse, defender as regras do trabalho e dos trabalhadores é que ela n...