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O Cantinho do Cante na Ovibeja

  Talvez tenham passado 20 anos, não sei ao certo, mas já foram muitos desde a primeira vez que o Cante foi marca de diferenciação na Ovibeja. Pela mão de José Luís Jones instalou-se o cantinho do Cante. Os homens do cante marcaram presença, cantaram ao despique, contaram historias, mostraram modas que já estavam em desuso. O homem do gravador, Jones, registava tudo, para depois editar em CD ou livro. Os olhos brilhantes e sorridentes a cada nova moda. E sempre a instigar a mais uma. Assim vivenciei pela primeira vez uma feira cheia daquele cante que ninguém ligava lá para os meus lados e que me cativava desde menina. Ele, o Jones, falou-me depois dos encontros de Cante de Aljustrel, da Festa da Senhora da Cola e do Cante ao Baldão, que desconhecia. E foi-me mostrando tudo o que tinha gravado. Muita entrevistas pelos campos fora, feitas a pastores e outros trabalhadores rurais que detinham esta riqueza imaterial. Essa, foi uma Ovibeja marcante para mim. Foi ali que comecei a trabal...

Não sou da geração que fez o 25 de Abril

  Não sou da geração que fez o 25 de Abril nem sequer da que a viveu plenamente, sou da seguinte, da que não tem memoria do fascismo a não ser pelos livros ou pelas conversas. Mas isso não faz com que não tenha memoria sobre esse dia distante. Há 41 anos atras no dia 25 de Abril eu e todas as minhas colegas de colégio, passamos o dia a rezar, mas nesse dia não foi pela alma dos meninos da Rússia foi mesmo pela nossa salvação. Um dia de dores nos joelhos e um dia de fome, devido ao jejum. Porquê? Só muito mais tarde soube porquê. Importante, importante foi o dia 26 de Abril, dia em que os meus pais não foram trabalhar e eu não fui ao colégio. Ate as dores nos joelhos me passaram e o dia foi todo de brincadeira. Gostei desta coisa a que chamavam liberdade. Se liberdade era não ir ao colégio e não rezar, por mim estava aprovada! Mas a liberdade havia de dar-me mais do que dias sem rezas. Deu-me a possibilidade de escolher o que fazer com a minha vida. Deu-me a liberdade de viajar. Deu...

25 de abril

  Hoje por aqui, alguns amigos, daqueles que estão no lado oposto ao que eu estou, tem escrito que "dante é que era bom, que Portugal vivia bem, não tinha divida, as pessoas tinham respeito ao poder e aos donos do dinheiro, que a maioria nem sabia que vivia em ditadura, que tinham emprego e por ai vai... Pois é, eu ate acho que eles acham que tem razão, pois os seus pais eram os empregadores, não lhes faltava nada na mesa e a vida corria-lhes bem. Percebo-os. e perguntam vocês porque os percebo' Porque eu também sei a história que lhes contaram. A minha mãe era filha e neta de donos de terras, foi à escola, tinha roupa nova e nunca andou descalça. Bebia leite condensado que vinha de Espanha pois não gostava de leite de vaca, a irmã foi tratada em Paris em criança e vinham a Évora de Charrete. Os avós davam emprego a muita gente e ate eram "generosos", ajudavam as viúvas, pagavam funerais e ate emprestavam dinheiros em casos de doença. Se eu soubesse só esta parte da ...

Morte no Tarafal

  Em 1937 um dos filhos da Maria Barenha, nascido a 24 de Abril de 1911, minha bisa deu entrada no Tarafal para nunca mais voltar. Parece que o avisaram varias vezes para não se meter em politica, para não entrar na revolta dos marinheiros, não escutou, foi há luta de peito aberto e coragem. Maria Barenha, a alentejana destemida da qual herdei o ADN, pôs-se a caminho de Lisboa para se despedir de mais um filho. Sabia que ele não voltaria, sabia que seria a ultima vez que o via. Parece, que ele lhe pediu desculpa por mais essa dor, mas a Maria não achou isso diz-se que lhe disse .- " se não lutasses, se te acobardasses ai sim era preciso desculpas, pois eu não pari cobardes, assim nada tenho a desculpar" e despediu-se dele para sempre! Esteve varias semanas em Lisboa a consolar mães, mulheres e filhas de condenados como o seu filho, regressada a casa voltou a tratar dos filhos que cá tinha deixado ( 3 haviam de morrer de forma idêntica). O filho morreu 1 ano depois de dar ent...

A forma de sapateiro

  Hoje o Francisco Chico da Emilinha partilhou uma foto de uma forma de sapateiro que me levou a olhar para a que tenho cá em casa, também ela hoje a servir de enfeite. E ao olhar para ela lembrei-me da minha mãe (que esta viva e se recomenda). Nascida numa família rica, o pai perdeu tudo tinha ela ai uns 16 anos. Menina sem ter hábitos de trabalho, a ir à escola e a comer carne e beber leite condensado, pois não gostava do de vaca. Tudo levava a querer que tivesse ficado, tal como os irmãos, uma ex-rica aparvalhada. Mas não, a minha mãe que não sabia fazer nada, nem a comida, arregaçou as mangas e aprendeu. Empregou-se numa fabrica, onde começou a enrolar rebuçados e de onde saiu como encarregada 40 anos depois. Mas não se ficou por ai, era o que faltava...ia aprender tudo o que fosse possível. Segundo ela, se um dia lhe voltasse a faltar o dinheiro, havia de saber desenrascar-se. Já a conheci a fazer a sua própria roupa que via as artistas vestirem nas revistas. Aprendeu a cortar...

as empresas abutre

  Na semana passada foi inaugurada com pompa e circunstancia uma nova empresa em Évora. O presidente da câmara, que varias vezes se referiu a esta empresa como exemplo foi mesmo cortar a fita da CAPGEMINI PORTUGAL. Depois, a oposição pegou numa entrevista dada pelo presidente do grupo para pedir explicações sobre o que disse o senhor à comunicação Social sobre a falta de mão de obra na cidade e sobre os preços caros da mesma...queixa-se o senhor de "estar a ir mais lento do que o previsto por um problema de oferta e que deveria ser o mais fácil de resolver". Lançadas estas afirmações logo um bando de gente desatou a dizer que por cá ninguém quer é trabalhar, que são uns malandros e por ai segue o discurso... Já há algum tempo me ando a conter em falar sobre esta empresa ( e as da sua laia), para não colocar agua fria no sonho de alguns, mas agora não vai dar...o senhor pós-se a jeito! Ora a empresa não consegue realmente profissionais qualificados, mas não por falta ou por na...

Sra Ministra Graça Fonseca

  esta tudo mal senhora ministra a classe artística que a senhora diz gostar tanto, que ate ficou contente com a sua ida para o ministério da cultura, esta a morrer de fome! E você assobia para o lado. Fomos os primeiros a fechar, somos aqueles que ja sabem, pois os contratos estao cancelados, que nao temos trabalho ate Setembro (no mínimo). Na grande maioria ja éramos todos precários o que fazia do nosso dinheiro chapa ganha, chapa gasta. Fomos apanhados no nosso pior período, pois como sabe (ou deveria saber) em Janeiro e Fevereiro raramente temos trabalho, o que faz com que muitos tenham as actividades fechadas ate Março, pois nao da´para pagar contribuições e nao receber. E o que temos como apoio é uma mao cheia de nada. a senhora poderia ter pedido a excepção no acesso a segurança social ( o estado de emergência permitia-o)e abranger os que estavam com as actividades fechadas, muitos deles com 8 meses de descontos no ano anterior, nao o fez. Deixando milhares sem acesso a es...