luisa "cao de Fila2-2026
uísa nasceu na casinha do quintal da casa dos senhores, era filha do senhor da casa e da filha adolescente da cozinheira que ali trabalhava desde sempre. Todos fingiam não saber, a senhora da casa não a queria por perto, o pai menos ainda. A única que lhe tinha algum carinho era a meia irmã, filha legítima, aquela que carregava o nome brasonado. Bem mais velha, era ela que tratava de a manter mais bem vestida que as filhas das outras criadas, era ela que providenciava para que a sua quota de comida na mesa fosse mais farta. A menina aprendeu a amar aquela "dona". Na sua casa de fundo de quintal, a avó achava que ela era a vergonha da sua família, a mãe via-a como a confirmação da sua maldição e dor. Ainda bem pequena, a mãe morreu, diz-se que de tristeza pelo crime a que havia sido sujeita pelo dono da casa, constava nos papéis "problema de coração". Uma e outra coisa deve ter sido a mesma coisa. Seja como for, a menina acabou sendo trazida mais para perto da irmã, senhora católica, que achou provavelmente ter ali a sua cruz para carregar. Cresceu na casa de família, onde nunca coube, foi sendo menina de recados da senhora da casa, do patrão "pai", da irmã, das sobrinhas e de todos os elementos da família que iam aparecendo. Era o pau para toda a obra, mas de forma diferenciada da outra criadagem, já que vivia na casa, frequentava os salões, ia às compras com as senhoras da família. Não estudou, como a irmã ou as sobrinhas, mas foi-lhe incutido ser "especial", diferia das outras criadas, era "quase da família" e ela sentia nisso um orgulho imenso, arreganhava o dente a qualquer um que disse um ai daquele "seu nucleo familiar", odiava "trabalhadores" com a mesma raiva que os seus senhores, era um cao de fila. Os senhores morreram, a irmã tornou-se a senhora da casa e do nome, as sobrinhas estudaram, arranjaram emprego, seguiram a vida e Luísa ficou por ali, a envelhecer ao lado de uma irmã que nunca a tratou como tal, mas que nunca lhe deu espaço para se afastar, e a páginas tantas era Luísa a cuidadora da "irmã". Os filhos vinham e davam ordens, Luísa obedecia e continuava a cuidar de tudo, enquanto a irmã envelhecia. Muitos dos que com elas privavam foram avisando de que a sua vida poderia ser complicada quando a "irmã" morresse, ela nunca acreditou, os "seus meninos" iriam cuidar dela, ela era "da familia". A irmã morreu, o normal para quem já tinha passado dos 80. Luísa estava já perto dos 70, não tinha saído daquela casa, a sua vida tinha sido vivida à volta daquela família, que considerava a sua, nunca namorou, nunca casou, nunca tinha tido emprego, mas estava convencida de que era "um deles", não de forma oficial, mas emocional. Meia dúzia de meses depois da morte da "irmã", a vida provou a Luísa que ela era só um peão num jogo que não sabia jogar. Os "meninos" quiseram vender a casa, até porque a família estava falida havia muito, e em casa alguma Luísa encaixava. Estava sem família, sem casa, sem direito a nada e dinheiro nunca havia tido, já que nunca trabalhara, "era da família". Numa tentativa de não deitar o nome completamente na lama, com a ajuda da igreja a quem eram muito ligados, lá enfiaram Luísa num lar, daqueles que os pobres podem pagar, junto com o povo, povo ao qual Luísa achava não pertencer, pois, a isso a tinham convencido toda a vida. Luísa, passou alguns anos nesse lar, ali percebeu que a tinham enganado toda a vida, que sempre tinha sido criada, só não paga, que o amor que pensava ter nunca foi mais que a necessidade de esconderem um erro do patriarca e de que sempre tinha vivido de esmolas. Luísa, percebeu tarde de mais a classe a que pertencia, percebeu tarde demais que sempre amou quem dela se serviu e morreu amargurada.
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