estou a fazer a minha parte" -2023
Saiu há dias um post sobre as relações entre artistas e produtores, onde se conta uma história triste. nao é para falar dela que vos quero falar, não a conheço, é de justiça, gratidão, de respeito e reconhecimento ou da falta dele.
Sei por experiencia propria, ainda hoje senti isso, que existe uma falta de respeito por parte da classe artística para com os produtores, programadores ( claro que não todos, mas uma grande parte). Muitos acham que eles vivem ás suas custas (e alguns vivem mesmo). Muitos acham que sem eles teria a mesma carreira ( e em alguns casos teriam), Mas em muitos casos isso não é verdade, muitas vezes o artista ( ou grupo) anda a fazer a sua arte e não sabe como a mostrar, um dia alguém vê que aquilo que ele faz é bom, que tem pernas para andar, resolve produzi-lo, divulga-lo, vende-lo e faze-lo entrar em instituições, palcos e países que ele nunca pensou ou conseguiria lá chegar. Muitas vezes paga do seu bolso gravações, viagens, deslocações, fá-lo porque acredita no projecto ( ou artista) e porque aquele é o seu oficio. Pode não cantar ou tocar, mas tem um oficio e se nao enganar o grupo (ou artista) no que paga, no que recebe é um trabalho digno, justo. Porem, na maior parte dos casos, e olhem que já ando nisto há 30 anos, quando o grupo tem visibilidade, quando começa a ser convidado para este ou aquele festival, dá um pontapé no cu de quem o ajudou a chegar ali. Basta-se, pensa para si, não precisa de andar a "engordar outros" é o que diz muitas vezes. Tem-me mostrado a vida que rapidamente ou é apanhado por um "produtor" dos que vivem realmente à conta da arte alheia ou começa a desaparecer ate não existir. É da natureza humana a ingratidão, é da natureza humana achar-se que o nosso trabalho é mais valido que o dos outros, é da natureza humana achar que se é melhor que a pessoa do lado. Mas é dessa natureza quem não tem valores sólidos. Quem não sabe o que é respeito, quem não sabe o que é gratidão.
Ha muitos anos que aceito ( apesar de me doer) que os que se cruzam comigo podem ser desses, já me aconteceu tantas vezes que não espero que não sejam assim, não os vejo à minha imagem e semelhança, caso o fizesse doeria mais.
Nos dias de hoje, cada vez faço menos esse papel, nao por o fazer mal, ou por não gostar de o fazer, mas como protecção á dor, protejo-me de ser ferida e por isso quando me pedem "vê lá se consegues" digo "não tenho tempo", não é mentira mas é uma meia verdade, poderia encaixar no meu tempo alguns, mas os que comigo se cruzaram e que eram dessa espécie activaram o meu instinto protector.
Ah, mas tal como existem esses que nos ferem, há os que nos dão tanto carinho que compensa, é por isso que de vez em quando lá vou eu de novo, pegar um grupo que gosto, um artista e faço-me á estrada, felizmente de peito aberto, que uns não tem que pagar pelos outros. Nessas alturas a única coisa que me ocorre é "estou a fazer a minha parte" se não fizerem a deles azar.
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