marina ribeiro a professora fora de tempo-julho 2025
Hoje deixou-nos uma "eborense de coração que a cidade renegou". Marina Ribeiro, foi um nome que conheci bem antes que a pessoa. Andava no liceu no inicio dos anos 80, quando tudo estava a mudar, quando a cidade parecia que ia sair do conservadorismo, da vergonha, dos valores cinzentos que sempre a caracterizaram quando ouvi falar dela pela 1º vez, como uma das referencias do ensino no tempo do fascismo, uma daquelas professoras que fez a diferença, que marcou alunos, que os ajudou, na escola e na vida, a pensar fora da caixa. Professora, vinda de sintra, que a cidade havia "expulsado" por ser muito moderna no ensino, nos valores, nas vestes e na forma de ver a vida. Contaram-me nessa altura que havia ajudado alguns alunos a sair a salto do pais para fugirem à tropa. Que na sua casa se juntavam os alunos para ler livros proibidos na epoca e declamar poesia, uma afronta para as mentes tacanhas das senhoras da cidade. Contaram-me nessa altura que foi chamada a atenção diversas vezes, que sempre se manteve firme na sua forma de ver e estar na vida, que não se dobrou às ordens ou aos costumes, por isso fizeram-lhe a vida negra ate que a expulsaram e a fizeram sair da cidade. Teve muitas decadas sem se aproximar, foi viver a vida em lugares mais leves, onde pudesse respirar, onde a vida fosse menos castradora. Teve uma carreira brilhante na publicidade, viajou pelo mundo, casou, teve filhos, netos e já na reforma, uma amiga convenceu-a a voltar a Évora. Acreditou na amiga que lhe afirmava que a cidade e as suas gentes tinham mudado. Regressou. Foi nessa altura que a conheci. Confirmei que era uma mulher muito à frente do seu tempo, muito diferente das mulheres de 70 anos. Tinha uma mente arrejada, olhava o mundo de forma livre, moderna, sem mordaças. Quis trazer essa liberdade para a terra de onde tinha saido. Na epoca, ao contrario dos seus antigos amigos, não lhe dourei a pilula, a cidade continuava igual. Tudo era tirado a ferros na mesma, as novas ideias eram vistas com maus olhos, que sair da caixa cinzenta e concervadora, continuava dorido. Pagou para ver e viu. Tentou implementar algumas ideias progressivas em varios lugares, todas as portas se fecharam. Tentou implementar novas ideias, nao consegiu o aval das instituições e nem dos parceiros. Um dia, uma das senhoras da praça, daquelas de nomes sonantes, circulo ao qual pertencia, disse-lhe não lhe mandou dizer "se continuares assim vamos expulsar-te de novo da cidade". Nesse dia, apanhou um taxi, foi ter comigo ao Armazem 8, para me contar isto e para se despedir, não tinha acreditado na minha leitura sobre a cidade, tinha tido a prova que eu tinha razao, a cidade não estava preparada para ela, mesmo passados tantos anos. A cidade, por baixo das luzes e lantejolas de modernidade, ainda continuava cinzenta, ia embora e pedia-me para ir tambem. Agradeci e disse-lhe que "eu fico". Ao contrario dela, o meu circulo é de gente comum que me ajuda nas empreitadas, que me apoia nas ideias, mesmo que sejam doidas, faço parte do povo comum, do povo simples que não tem que se apegar a valores do tempo da outra senhora, tenho sorte, tenho o caminho mais facilitado, a minha gente é mais generosa
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