caminhada noturna -2024
Ontem fiz a minha primeira caminhada noturna com os Grupo Caminheiros de Évora. Voltei a um tempo distante da adolescência, quando com um grupo de amigos que se tornaram gente importante na biologia, íamos para o campo observar os animais noturnos. Voltei a sentir o cheiro do campo na noite, um cheiro que difere do diurno, posso afirmar-vos, apesar de não ter estudos para vos explicar porquê. A lua cheia ajudava-nos no caminho, os chilreados dos pássaros e os ruídos no restolho, mostravam-nos as vidas que povoam a noite alentejana, nas margens do Guadiana. Por entre as copas das arvores, o rio vinha até ao nosso olhar mostrando-nos as margens de Espanha do lado de lá, o mesmo rio, a mesma paisagem, a dividir dois povos. Ali, subindo e descendo barrancos, dei por mim a pensar nos meus, naqueles que povoaram aquela zona antes de mim, dos que passavam o rio na calada da noite e iam a terras de Espanha a contrabando, para poderem ganhar a vida, eles viam a mesma paisagem que eu estava a ver, ouviam os mesmos sons da noite, mas eu estava ali ontem por prazer, acompanhada por mais 98 companheiros de caminhada, protegida por uma organização que me acudiria em caso de necessidade e eles estariam em perigo, sozinhos, sujeitos a serem apanhados ou a ficar ali mesmo caso algo lhes acontecesse. Ali, naquelas trilhas do Alentejo das gentes da minha mãe, honrei-os pensando neles, colocando quem sabe os pés nos mesmo lugares que tantos antes de mim colocaram, dando importância aos animais viventes nas margens do rio, que era o deles, cheirando o funcho, que os levou a inventar o anis, que a minha mãe fazia tão bem, ou o rosmaninho que colocava nos armários e que marcava o cheiro de Casa, a casa que era dela. Ontem, fiz a minha primeira caminhada noturna, e apesar de não ter pensado nisso quando me inscrevi, foi bom ter escolhido juromenha para a fazer, a raia, o rio a terra das gentes da minha mãe que vive em mim, mesmo que eu queira ser mais de um Alentejo mais seco, mais profundo, as gentes e a paisagem que me marca mais do que eu queria, mais do que devia, pois é essa costela que me faz não "estar quieta"
Comentários
Postar um comentário