o meu "irmão" ficou na guiné-2015
Era muito pequena e de um dia para o outro a guerra entrou no meu vocabulário. O filho da minha "mãe da casa", o "irmão" que consegui ter, ia para longe...ele que me levava ao cinema, ao parque, à praça e a ver os comboios, ia para longe, muito longe. Senti-me traída, não queria...ia ficar sem o meu amigo...mas ele foi! Todos os dias rezava na capelinha lá de casa, acendia a velinha e mantinha a lamparina acesa...tudo para que ele voltasse. O meu tio também tinha ido, e tinha voltado doente, lembro-me de ter medo dele voltar doente também. De vez em quando chegava uma carta...uma carta diferente das outras, onde ele contava que estava tudo bem e mandava beijos. No Natal, apareceu na televisão e mandou-me beijos, senti-me importante por segundos...mas fiquei triste logo a seguir ia ser Natal e ele não estava ali, estava la com os outros meninos de cor que apareceram na televisão. Os anos passaram e o meu "irmão de coração" voltou. Voltou bem de saúde...ou talvez não. Mas eu senti que não voltou o mesmo...o das gracinhas, das brincadeiras, das chalaças fáceis, esse não voltou. Voltou um homem serio, que se escondia atras de um sorriso grande. Voltou um homem que se dedicou ao estudo para conquistar o mundo. Que se dedicou ao trabalho afincadamente para ser muito bom. La longe, ficou o meu irmão do coração, aquele que sonhava com um mundo melhor, com a igualdade entre todos...sei que ficou la, porque nunca mais o encontrei e eu tenho tentado...de vez em quando ele distrai-se e sai daqueles olhos azuis, mas logo volta e se esconde na Guiné, onde ficou sabe-se lá com quem, nem como! E eu nessas altura penso na frase do poeta " que volte logo e bem, o menino da sua mãe!" Mas ele não volta...a guerra ficou com ele e com muitos outros e ate hoje não os deixa! O que ganhamos? Nada! O que perdemos? Uma geração de gente de bem!
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